Caxias tem 'campo minado' e tragédia pode se repetir

Orelhões e caixas d’água derretidas compõem cenário em torno da empresa que pegou fogo em Caxias. Há famílias desalojadas

Por O Dia

Rio - Uma região altamente inflamável. Ainda sob o impacto do incêndio em seis tanques de combustível da empresa Petrogold, em Duque de Caxias, que provocou uma morte e deixou oito feridos, moradores de áreas próximas ao local temem que a tragédia se repita.

Eles vivem perto de outros depósitos de combustível, muitos clandestinos, e alguns separados de suas casas só por um muro.

“Essa região é uma bomba relógio. E o pior é que você só sabe que tem algo de errado quando há uma tragédia”, disse Rogério Gregório, de 59 anos. Do alto da Estrada José Pinheiros Alonso, em Campos Elísios, Duque de Caxias, Rogério via alguns dos tanques instalados a menos de 500 metros de sua casa.

O caminhão incendiado compõe cenário de destruiçãoEstefan Radovicz / Agência O Dia

Há cerca de 20 dias, uma empresa clandestina foi estourada perto da casa dele. Policiais da Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados (DDSD) flagraram depósito ilegal de adulteração de combustíveis. Uma pessoa foi presa.

Nesta sexta-feira, perto do local da explosão, um jovem chamava a atenção para duas garagens, nas ruas Sá Carvalho e Otacílio Câmara: “Armazenam durante dias os combustíveis nos caminhões tanques, até todos os litros serem vendidos. Estes depósitos, na maioria com muros altíssimos, não têm sequer identificação”, comentou.

Suspeitas sobre a existência de tanques de combustível clandestinos não faltam na região. A menos de 200 metros do local da explosão de quinta-feira, moradores denunciavam ontem o que seriam mais três depósitos irregulares.

Segundo uma moradora, uma distribuidora na Rua Emílio Gomes é usada para armazenar e adulterar gasolina.

“Somos ameaçados pela milícia que controla estas atividades”, diz. O secretário Estadual de Meio Ambiente, Carlos Minc, anunciou que o depósito da Petrogold não será reaberto e que outros reservatórios serão embargados.

Momento de alívio%3A Gisele Dias perdeu quase tudo%2C mas conseguiu reencontrar seus gatos de estimaçãoEstefan Radovicz / Agência O Dia

Um dia depois do incêndio, o cenário na área afetada era de terra arrasada. Telefones públicos destruídos pelo fogo, caixas d’água derretidas, casas interditadas e as marcas das chamas em muros e calçadas. Houve até uma nova explosão.

Ao todo, 114 casas foram interditadas pelos bombeiros, sendo 13 praticamente destruídas.

“Demorei três anos para fazer minha casa. E o fogo destruiu tudo”

Com a explosão de quinta-feira, o militar Rafael Pereira, de 28 anos, viu o sonho da casa própria ruir. O imóvel, que acabara de construir para viver com a esposa e o filho, que nasceu na última quarta-feira, ficou cheio de rachaduras.

“No mesmo local, em 1995, funcionava uma fábrica de álcool, que explodiu também. Só que dessa vez foi pior. Demorei três anos para fazer esta casa”, disse.

Nesta sexta-feira pela manhã, Gisele Dias, conseguiu resgatar dois gatos de estimação, que estavam na sua casa: “Perdemos tudo, dinheiro, eletrônicos, meus livros, minha vida” O mesmo drama atingiu a família do pedreiro Elias Nunes Lima, de 56 anos: “O fogo queimou as telhas da casa, derreteu todas as tubulações de plástico, além das vidraças que estouraram e dos eletrodomésticos que foram danificados”.

De acordo com o núcleo de Assistência Social da Prefeitura, a Igreja Assembleia de Deus, na Rua Mário Feijó, ficará aberta para receber os desabrigados e prestar assistência psicológica.

Sindicato aponta falha humana e falta de brigada

O incêndio nos tanques pode ter sido causado por falha humana durante a operação de abastecimento do caminhão. A denúncia é do Sindicato dos Trabalhadores do Comércio de Minérios Derivados de Petróleo (Sitramico-RJ).

A moradora Creusa Silva%2C ao lado de um orelhão derretido pelo fogoEstefan Radovicz / Agência O Dia

Segundo a presidente do órgão, Lígia Deslandes, distribuidoras de pequeno e médio portes estão cortando funcionários qualificados, como os operadores de abastecimento.

“Para ter mais lucro, o serviço é feito por motoristas de caminhão, que acumulam a função sem seguir as normas de segurança”, alerta. De acordo com o sindicato, um operador, nível iniciante, ganha R$ 2 mil.

O salário dos mais experientes chega a R$ 5 mil. “Não estão levando bananas. É combustível, inflamável e de alta periculosidade”, critica Lígia, que apontou a falta de brigadas de incêndio e de manutenção no sistema antichamas que não funcionou. “Infelizmente, o lucro está acima das vidas humanas”, lamentou.

Distribuidora triplicou área de ocupação em apenas quatro anos

Os tanques da Petrogold guardavam 2 milhões de litros de combustível, mas segundo a prefeitura o local não poderia manter mais de 2 mil litros. Em apenas quatro anos, a Petrogold triplicou a área de operação.

De acordo com prefeitura, ela obteve, em 2009, alvará para ocupar 480 metros quadrados. Hoje a área chega a 1.500 metros.

O equivalente a uma piscina olímpica de água e um caminhão pipa de espuma foram usados no combate às chamas. O trabalho dos bombeiros entra hoje no terceiro dia, para evitar sustos como o desta sexta.

“Não foi bem uma explosão. As chamas voltam e em contato com o ar há uma rápida combustão. Isso ocorre para que o material seja consumido, mas logo em seguida entra a espuma em jogo, tirando o contato da chama com o oxigênio", disse o chefe do Estado-Maior do Corpo de Bombeiros, coronel Ronaldo de Alcântara.

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