Polícia Militar ocupa oficialmente o Complexo da Maré

Após um ano e três meses, Força de Pacificação deixa em definitivo o conjunto de favelas que terá quatro sedes de UPPs

Por O Dia

Rio - Poucas horas antes de a Polícia Militar ocupar em definitivo o Complexo da Maré após a saída do Exército, nesta terça-feira, PMs já relatavam o medo de atuar na região e da ousadia dos bandidos que continuam circulando armados. Os PMs criticam ainda a ocupação sem estrutura, além do armamento obsoleto, como eles mesmos definiram. Cerca de 1.700 PMs substituíram definitivamente a Força de Pacificação do Exército na região. Antes da troca, um tiroteio assustou moradores da Nova Holanda. Ninguém ficou ferido.

“Tiram três mil homens das Forças Armadas bem equipadas e colocam 200 policiais com armas de 70 anos, totalmente obsoletas”, disse um PM, que não quis se identificar. “A Maré vai ser osso duro. Todos sabem. Basta ver os baseamentos nas entradas do complexo”, avisou ele.

Tropas federais deixam o Complexo da Maré nesta terça-feira%3B Polícia Militar assume o conjunto de favelas da Zona Norte Severino Silva / Agência O Dia

Na página ‘Admiradores da PMERJ’, no Facebook, foi publicado um relato de militar. Um deles ainda comparou o conjunto de favelas com o Complexo do Alemão. “Eu pensava que o Alemão era tudo de ruim que já vi e covardia, mas hoje eu vi que a Maré vai ser pior. Que Deus proteja os nossos irmãos de farda. O Exército sai hoje... só Deus”, escreveu um policial.

Minutos antes, outro PM disse ter visto bandidos armados na passarela na Linha Amarela. “Fiquei surpreso com o que eu vi: 30 vagabundos atravessaram na nossa frente na Amarela, próximo ao Timbau. Nunca me senti tão impotente”, relatou.

Moradores também relatam medo. “Tenho dúvidas sobe a polícia na Maré porque, historicamente, ela sempre atua com pouca ênfase na ideia de segurança pública e garantia dos direitos dos moradores”, disse a diretora da Redes da Maré, Eliana Silva.

“Fiquei decepcionada com o Exército porque não era preparado. E com a PM vai ser pior. Eles têm que prender quem está errado, não matar”, desabafou moradora que pediu para não ser identificada.

Leia mais:

'Pacificação da Maré será mais difícil', diz Beltrame

Tráfico resiste após um ano de ocupação militar na Maré

Beltrame quer estrutura


Desde terça-feira ao meio-dia, a Maré está ocupada por mais 400 PMs. A entrada dos policiais foi gradativa e começou em abril pela Praia de Ramos e Roquette Pinto. Enquanto as UPPs não são instaladas, eles farão um cinturão de segurança do Caju até a entrada da Linha Vermelha ocupando 21 pontos da região.

Durante a passagem de comando o secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, ressaltou a importância do cerco da PM na região e parabenizou o Exército pelo trabalho na Maré. “Só vamos inaugurar UPP quando tivermos uma estrutura digna pra darmos aos policiais. Enquanto ela não vem, farão um grande cerco na região e não vamos recuar. Vamos fazer operações pontuais mantendo o diálogo com os moradores.”

Os batalhões de Choque e de Ações com Cães apreenderam drogas na favela e prenderam um homem de 30 anos, no Parque União, que estaria com maconha em casa.

PMs do Batalhão de Choque detiveram homem com drogas nesta terça-feira no Parque União%2C no Complexo da MaréSeverino Silva / Agência O Dia

Ao deixar o Complexo da Maré, o general de Divisão Carlos Alberto Neiva Barcellos destacou o trabalho da Força de Pacificação: "Fica a sensação de missão cumprida. Trouxemos mais segurança e estabilidade à região. O trabalho da PM agora é de continuidade ao nosso", disse o militar. Já o secretário de Segurança não descartou a parceria com o Exército para outras ações: "A parceria é sempre bem-vinda", disse ele, sem afirmar que usará as Forças Armadas para uma nova ocupação. 

Militares da Força de Pacificação que deixavam a Maré em dois ônibus chegaram a comemorar a saída do conjunto de favelas. 

No Complexo da Maré estão previstas as instalações de quatro Unidades de Polícia Pacificadora (UPP): Praia de Ramos/Roquete Pinto; Nova Holanda/Parque União; Baixa do Sapateiro/Timbau e Vila do João/Vila dos Pinheiros.

Homens da Força de Pacificação deixaram o Complexo da Maré nesta terça-feiraSeverino Silva / Agência O Dia


Últimas de Rio De Janeiro