Em livro, urbanista traça o panorama das remoções feitas para a Olimpíada

'SMH 2016: Remoções no Rio de Janeiro Olímpico' traça um grande panorama das transformações urbanas que a cidade sofreu nos últimos anos

Por O Dia

Rio - Com diversos dados e mapas sobre as remoções feitas no Rio entre 2009 a 2012 e depoimentos de moradores atingidos, o livro “SMH 2016: Remoções no Rio de Janeiro Olímpico”, da Mórula Editorial, fecha as lacunas e traça um grande panorama das transformações urbanas que aconteceram em torno da Copa do Mundo de 2014 e, principalmente, dos Jogos Olímpicos de 2016. 

Uma das fotos que compõem o livro%2C feita em novembro de 2013%2C mostra escombros de parte da comunidade Beira Rio%2C em ManguinhosReprodução


A obra nasceu do trabalho de conclusão do curso que Lucas Faulhaber apresentou na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense. Um dos mapas do trabalho, que mostra as favelas com remoções e os empreendimentos do Minha Casa, Minha Vida que receberiam as famílias, ficou conhecido na internet, especialmente entre os movimentos sociais. “Os mapas denunciam que essas pessoas estão sendo tiradas das áreas mais valorizadas e jogadas na fronteira da área urbana do Rio”, explicou Faulhaber. 

Para o autor, esse processo de segregação acontece por interesses do mercado imobiliário, que ganha tanto na desapropriação de áreas nobres quanto na realocação em áreas distante, e da prefeitura do Rio. Ele afirma ainda que, embora isso esteja acontecendo no cenário dos Jogos Olímpicos, esses processo é recorrente na história do Rio.

“No passado, a desculpa era higienista, hoje é o megaevento. Porém, isso é um desejo da elite carioca, com ou sem olimpíadas”, declarou o arquiteto, que hoje faz mestrado na UFRJ. “A ideia é que o livro seja um instrumento para contestar esse conceito de cidade, mostrar, através de dados e mapas, a articulação dos agentes públicos e privados nesse processo”, contou o autor.

A jornalista Lena Azevedo foi chamada para colher histórias de pessoas atingidas pelas remoções. “Era o melhor balanço sobre as remoções que existia, mas esses dados não são só números; são 60 mil famílias atingidas”, diz Lena. Por dois meses ela fez entrevistas com moradores que eram referências na luta contra as remoções em oito comunidades, entre elas a Vila Recreio II, totalmente removida no ano passado. Para completar, o livro traz belas e impressionantes fotos de Luiz Baltar, fotógrafo documentarista que desde 2009 acompanha o drama das remoções nas comunidades do Rio.

A obra conta com prefácio da urbanista Raquel Rolnik, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP) e relatora da ONU para o direito à moradia adequada entre 2008 e 2014. Em um trecho Rolnik diz que a importância do trabalho é “trazer informações precisas e preciosas sobre as remoções dos pobres urbanos no Rio de Janeiro”. 

Ícones da resistência às remoções

O livro levou um ano para ganhar forma. Além da adequação do texto acadêmico para um registro mais acessível, as entrevistas tomaram dois meses de trabalho.

“Eu resisti a tudo nesses 34 anos. Não vai ser agora, com tanta gente junto, que vou desistir”, disse Steliano Francisco do Santos, da Vila Autódromo, em depoimento do livro. Lena Azevedo, responsável pelos 12 relatos, explicou o processo. “Foram oito comunidades. São locais emblemáticos da luta contra as remoções”, disse. As comunidades visitadas foram Providência, Metrô Mangueira, Indiana, Morro das Palmeiras, Grota, Estradinha Botafogo, Vila Recreio II e Vila Autódromo.

Reportagem Flora Castro

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