Refrigerante serve de propina para festa de PMs do Batalhão da Tijuca

A mando de oficial, empresa teria sido obrigada a entregar bebida para policiais do 6º BPM

Por O Dia

Rio - Uma quadrilha fardada dentro do 6º BPM (Tijuca), indiciada por montar um esquema de cobrança de propina a motoristas do transporte alternativo em três favelas pacificadas, conforme revelou o DIA na edição de 11 de maio, também foi acusada de extorquir condutores da transportadora Della Volpe. Responsável pela distribuição de refrigerantes, a empresa teria sido obrigada a entregar uma grande quantidade de bebidas para a festa do batalhão a mando do major Rômulo Oliveira André, subcomandante da unidade na época.

Em cinco ligações grampeadas, entre os dias 3 e 10 de junho passado, PMs do Auxílio à Polícia de Trânsito (Aptran) falaram sobre o esquema. Segundo a investigação, o sargento Adalci Dias de Carvalho retirou o carregamento (leia teor da escuta ao lado). Um telefonema no dia 5 de junho de 2013 mostra uma prática adotada por Carvalho. Irritado por não ter sido atendido, ele disse que iria apreender um veículo, como forma de pressionar a empresa.

Caminhão da distribuidora Della Volpe parado irregularmente na Rua Barão de Mesquita%3A PMs cobravam propina para não autuar empresaHerculano Barreto Filho / Agência O Dia

“Tô ligando pra ele o dia todo. Hoje que eu não consegui falar com ele. Amanhã, vou resolver isso. Vou parar o caminhão dele, vou prender logo o documento. Ele vai voltar rapidinho a me ligar”, avisou. Segundo a investigação, feita pela 19ª DP (Tijuca), no ano passado, os PMs do Aptran cobravam propina para não autuar os caminhões, que param em locais proibidos para entregar refrigerantes. Anteontem de manhã, o DIA flagrou um veículo da empresa parado em local irregular, na Rua Barão de Mesquita. Procurada, a empresa Della Volpe disse que repudia a ação e irá buscar informações sobre o caso.

Em outubro do ano passado, o Ministério Público (MP) pediu à Justiça a prisão preventiva de 12 policiais do batalhão da Tijuca — entre eles, o tenente-coronel Márcio de Oliveira Rocha, comandante da unidade na época. Segundo a denúncia, o grupo recebia mais de R$ 100 mil mensais e foi indiciado por formação de quadrilha, corrupção passiva, associação criminosa e prevaricação (não cumprir com a função de agente da lei). Sete meses depois, o pedido ainda não foi apreciado pela Justiça.

O promotor Marcos Kac, da 9ª Promotoria de Investigação Penal (PIP) lamenta a demora do Judiciário. “Precisamos nos concentrar na parte principal da denúncia, que envolvia os policiais. Mas não foi possível dar continuidade à investigação, porque o Judiciário não analisou o caso”, lamentou o promotor.

Gravações

6 de junho de 2013

Às 14h13, Adalci fala com o então sargento Eduardo Carvalho Mendonça sobre um carregamento de refrigerantes, pedido pelo major Rômulo. Segundo a investigação, as bebidas seriam usadas numa festa do 6º BPM (Tijuca).

Mendonça - Fala, Adalci.
Adalci - Fala. Major pediu quatro amarrados de refrigerante pra amanhã. Major Rômulo, pra ele. Já falei com o (nome do representante da empresa) hoje. Hoje que eu consegui falar com ele. Tive que parar um caminhão pra conseguir falar com ele (...).
Mendonça - Ele quer quatro amarrados de Coca-Cola?

8 de junho de 2013

Às 12h48, Adalci vai à empresa para pegar os refrigerantes.

Adalci - Tô aqui fora.
Representante - Vou pedir para o supervisor aí te receber. Ele que tava no local. Já tá sabendo já, tá bom?
Adalci - Tá bom, tá bom.

10 de junho de 2013

Adalci pede ajuda ao cabo Bruno Mendonça Domingos para retirar o refrigerante da viatura. Bruno fala sobre a cota que iria receber de propina.

Bruno - Minha cota, vou pegar ao voltar da academia.
Adalci - É. Mas tem que ajudar pra tirar do carro, né?

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