João Batista Damasceno: Valor da vida na favela

A lamentável perda do filho de Alckmin decorreu de risco assumido. O mesmo não aconteceu com o menino Jesus, morto na Semana Santa

Por O Dia

Rio - Valor não é característica própria de nenhum bem material ou imaterial; é atribuição por um sujeito. Valor é qualidade de não indiferença. Maior a indiferença, menor o valor. Dizemos que a vida não tem preço, tamanho o seu valor. E todas as vidas devem se equivaler. Mas as mortes de Thomaz Alckmin, filho do governador de São Paulo, e do menino Eduardo de Jesus Ferreira, no mesmo dia, tiveram tratamentos diferentes, apesar da gravidade institucional causadora da morte do garoto.

Eduardo de Jesus tinha 10 anos e foi assassinado por um tiro de fuzil numa comunidade ‘pacificada’. Thomaz, filho da elite paulista, tinha 31 e morreu num acidente de helicóptero. São Paulo é a cidade com a maior frota de helicópteros do mundo, e a probabilidade de acidentes é proporcional. É contrário à natureza que os pais sepultem os filhos. O governador de São Paulo merece toda solidariedade. Mas a lamentável perda de seu filho decorreu de risco assumido. O mesmo não aconteceu com o menino Jesus, morto na Semana Santa. Pela morte da criança negra e pobre não houve comoção midiática ou manifestação pesarosa dos governantes. A presidenta Dilma lamentou oficialmente o acidente com Thomaz, mas se limitou a palavras vagas sobre Jesus, dizendo apenas que espera que os culpados sejam responsabilizados, sem manifestação sobre o modelo de política genocida que apoia.

Assombrou-nos a foto de uma menina na Síria que confundiu a máquina de um fotógrafo com uma arma e levantou os braços. Mas naturalizamos o terror das crianças nas favelas quando avistam quem as deveria proteger. Quando em 2007 intensificaram-se as execuções pelas forças do Estado, depois de declaração do governador do Rio de que o ventre das mulheres faveladas era fábrica de reposição de mão de obra para o tráfico, artistas e intelectuais lançaram manifesto contra a política de extermínio. O secretário Beltrame declarou que o manifesto era míope, e foi iniciada a política de ocupação militar das favelas.

A indiferença e a perversidade grassam sobre os pobres. Para justificar o assassinato de Jesus, montagem de foto de criança com arma foi divulgada nas redes sociais. Com cinismo, autoridades disseram que o Alemão será reocupado militarmente. E o sinal foi dado para que domicílios voltassem a ser violados, e portas, arrombadas. Sem educação pública de qualidade, a pedagogia do Estado é a do caveirão e do medo, da opressão que ensina a submissão ao Estado Policial, sob pena de execução; do pezão na porta do barraco.

João Batista Damasceno é doutor em Ciência Política pela UFF e juiz de Direito

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